quinta-feira, setembro 17, 2009

REFLEXÃO


O milagre do amor é fechar o mundo em torno de um ser que nos encanta, o horror do amor é fechar o mundo em torno de um ser que nos acorrenta.

Aos vinte anos a beleza é uma evidência, aos trinta e cinco uma recompensa, aos cinquenta um milagre.

Chamo de inocência essa doença do individualismo que consiste em querer escapar às consequências de seus atos, essa tentativa de gozar dos benefícios da liberdade sem sofrer nenhum dos seus inconvenientes. Ela se desdobra em duas direções, o infantilismo e a vitimização, duas maneiras de fugir da dificuldade de ser, duas estratégias de irresponsabilidade feliz.

Se a pobreza, segundo São Tomás, é a falta do supérfluo e a miséria é a falta do necessário, somos todos pobres na sociedade de consumo: tudo nos falta porque tudo é excesso.

O consumo é uma religião degradada, a crença na ressurreição infinita das coisas, na qual o supermercado é a igreja e a publicidade o evangelho.

A televisão só exige um ato de coragem do espectador - um ato sobre-humano - apagá-la.

Amar é viver a aliança indissolúvel do terror e do milagre.

A obscenidade da guerra é a inevitável cumplicidade que ela acaba tecendo entre inimigos que crêem não ter nada em comum e se parecem cada vez mais.

A economia deveria nos libertar da necessidade. Quem nos libertará da economia?

A beleza da existência é escapar de si mesmo, abrir-se à multidão dos destinos possíveis que trazemos em nós. Em vez de ser alguém, por que não querer ser muitos? Conhecer-se, só é útil para melhor se esquecer de si mesmo, não estar mais enrolado em si mesmo, tornar-se disponível ao esplendor do mundo.

Ser bárbaro é se acreditar civilizado, rejeitar os outros ao nada. Enquanto que ser civilizado, é se saber bárbaro, conhecer a fragilidade das barreiras que nos separam da nossa própria ignominia e que o mesmo mundo traz em si a possibilidade da infâmia e do sublime.

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