.jpg)
O Cristianismo primitivo possuía, pois, o verdadeiro sentido do destino. Mas, com as sutilezas da teologia bizantina, o sentido oculto desapareceu pouco a pouco; a virtude secreta dos ritos iniciáticos desvaneceu-se como um perfume sutil. A escolástica abafou a primeira revelação com o peso dos silogismos ou arruinou-a com sua argumentação especiosa.
Entretanto, os primeiros padres da Igreja e, entre todos, Origenes e S. Clemente de Alexandria, pronunciaram-se em favor da transmigração das almas. S. Jerônimo e Ruffinus ("Carta a Anastácio") afirmam que ela era ensinada como verdade tradicional a um certo número de iniciados.
Em sua obra capital, "Dos Princípios", livro I, Orígenes passa em revista os numerosos argumentos que mostram, na preexistência e sobrevivência das almas em outros corpos, o corretivo necessário à desigualdade das condições humanas. De si mesmo inquire qual é a totalidade dos ciclos percorridos por sua alma em suas peregrinações através do Infinito, quais os progressos feitos em cada uma de suas estações, as circunstâncias da imensa viagem e a natureza particular de suas residências.
S. Gregório de Nysse diz "que há necessidade natural para a alma imortal de ser curada e purificada e que, se ela não o foi em sua vida terrestre, a cura se opera pelas vidas futuras e subseqüentes".
Todavia, esta alta doutrina não podia conciliar-se com certos dogmas e artigos de fé, armas poderosas para a Igreja, tais como a predestinação, as penas eternas e o juízo final. Com ela, o Catolicismo teria dado lugar mais largo à liberdade do espírito humano, chamado em suas vidas sucessivas a elevar-se por seus próprios esforços e não somente por graça do Alto.
Por isso, foi um ato fecundo em conseqüência funesta a condenação das opiniões de Orígenes e das teorias gnósticas pelo Concílio de Constantinopla em 553. Ela trouxe consigo o descrédito e a repulsa do princípio das reencarnações. Então, em vez de uma concepção simples e clara do destino, compreensível para as mais humildes inteligências, conciliando a Justiça Divina com a desigualdade das condições e do sofrimento humanos, vimos edificar-se todo um conjunto de dogmas, que lançaram a obscuridade no problema da vida, revoltaram a razão e, finalmente, afastaram o homem de Deus.
A doutrina das vidas sucessivas reaparece novamente em épocas diferentes no mundo cristão, sob a forma das grandes heresias e das escolas secretas, mas foi muitas vezes afogada no sangue ou abafada debaixo das cinzas das fogueiras.
Na Idade Média eclipsa-se quase de todo e deixa de influenciar o desenvolvimento do pensamento ocidental, causando-lhe dano por esta forma. Daí os erros e a confusão daquela época sombria, o mesquinho fanatismo, a perseguição cruel, o ergástulo do espírito humano. Uma espécie de noite intelectual estendeu-se sobre a Europa.
No entanto, de longe em longe, como um relâmpago, o grande pensamento ilumina ainda, por inspiração do Alto, algumas belas almas intuitivas; continua a ser para os pensadores de escol a única explicação possível do que, para a massa, se tornara o profundo mistério da vida.
Não somente os trovadores, nos seus poemas e cantos, lhe faziam discretas alusões, mas até espíritos poderosos, como Boaventura e Dante Alighieri, a mencionam de maneira formal. Ozanam, escritor católico, reconhece que o plano da "Divina Comédia" segue muito de perto as grandes linhas da iniciação antiga, baseada, como vimos, sobre a pluralidade das existências.
O Cardeal Nicolau de Cusa sustenta, em pleno Vaticano, a pluralidade das vidas e dos mundos habitados, com o assentimento do Papa Eugênio IV.
Thomas Moore, Paracelso, Jacob Bcehme, Giordano Bruno e Campanella afirmaram ou ensinaram a grande síntese, muitas vezes com o próprio sacrifício. Van Helmont, em "De Revolutione Animarum", expõe, em duzentos problemas, todos os argumentos em prol da reencarnação das almas.
Não são estas altas inteligências comparáveis aos cumes dos montes, aos cimos gelados dos Alpes, que são os primeiros a receber os alvores do dia, a refletir os raios do Sol, e que ainda são iluminados por ele quando já 0 resto da Terra está imerso nas trevas?
O próprio Islamismo, principalmente no novo Alcorão, dá lugar importante às idéias palingenésicas. (181) Finalmente, a Filosofia, nos últimos séculos, enriqueceu-se com elas. Cudworth e Hume consideram-nas como a teoria mais racional da imortalidade. Em Lessing, Herder, Hegel, Schelling, Fichte, o moço, elas são discutidas com elevação.
Mazzini, apostrofando os bispos, na sua obra "Dal Concilio a Dio", diz:
"Cremos numa série indefinida de reencarnações da alma, de vida em vida, de mundo em mundo, cada uma das quais constitui um progresso em relação à vida precedente. Podemos recomeçar o estádio percorrido quando não merecemos passar a um grau superior; mas, não podemos retrogradar nem perecer espiritualmente." Reflita sobre tudo isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário