terça-feira, setembro 15, 2009

O VENDEDOR DE SONHOS



Certo dia tive um encontro com um homem que vendia sonhos, ele me disse; Eu respeito a sua dor e não posso elaborar nenhuma tese sobre ela. Sua dor é única, e é a única que você consegue realmente sentir. Ela te pertence e a mais ninguém. Pois eu sou diferente de você. Porque você parou de procurar a si mesmo. Tornou-se um deus. Enquanto eu diariamente me pergunto: ”Quem sou?”Pois eu sou diferente de você...Por que Darwin, nos instantes finais de sua vida, quando sofria de intoleráveis náuseas e vômitos, bradava ”Deus meu”? Era ele um fraco ao clamar por Deus diante do esgotamento de suas forças? Era ele um covarde por se perturbar diante da dor e, ao se aproximar da morte, considerá-la um fenômeno anti natural, embora a sua teoria se fundamentasse em processos naturais da seleção das espécies? Por que ocorreu um grave conflito entre sua existência e sua teoria? A morte é o fim ou o começo? Nela nos perdemos ou nos encontramos? Será que, quando morremos, somos regurgitados da História como atores que nunca mais contracenam? Jamais refletira sobre a hipótese de que, de forma tão singela quanto um bebê que regurgita o leite que o amamentou, ele, , estaria regurgitando sua história da História. Embora fosse partidário da teoria da evolução, desconhecia o homem Darwin e seus conflitos. Mas será que Darwin havia sido incoerente e frágil?  Não... não podia ser. ”Darwin não desistiu de viver. Ele certamente se apaixonou pela vida muito mais do que eu”, como se pegasse carona no ar que aspirava para percorrer áreas de sua mente jamais percorridas. Trabalhamos, compramos, vendemos e construímos relações sociais; discordamos sobre política, economia e ciências, mas no fundo somos meninos brincando no teatro da existência, sem poder alcançar sua complexidade. Escrevemos milhões de livros e os armazenamos em imensas bibliotecas, mas somos apenas crianças. Não sabemos quase nada sobre o que somos. Somos bilhões de meninos que, por décadas a fio, brincam neste deslumbrante planeta .Percebeu que o forasteiro estava chorando. Era uma reação incompreensível para um homem tão forte, afinal. Parecia que penetrava na dor indescritível dos filhos que perderam os pais e cresceram se perguntando: ”Por que não suportou sua dor por mim?”. Ou parecia que percorria a mente dos pais que perderam os filhos e que, apesar de freqüentemente terem feito muito por eles, se contorciam de culpa, alimentada pelo pensamento: ”O que eu poderia ter feito por meu filho e não fiz?”. Ou ainda parecia que o invasor chorava porque resgatava suas perdas desconhecidas.Quando considero a brevidade da existência dentro do pequeno parêntese do tempo e reflito sobre tudo o que está além de mim e depois de mim, enxergo minha pequenez. Quando considero que um dia tombarei no silêncio de um túmulo, tragado pela vastidão da existência, compreendo minhas extensas limitações e, ao deparar com elas, deixo de ser deus e liberto-me para ser apenas um ser humano. Saio da condição de centro do universo para ser apenas um andante nas trajetórias que desconheço...Eu sou o vendedor de sonhos. Eu procuro vender coragem para os inseguros, ousadia para os fóbicos, alegria para os que perderam o encanto pela vida, sensatez para os incautos, críticas para os pensadores.Venha e siga-me, e eu o farei um vendedor de sonhos. Não perguntei sua profissão, seu status social, suas atividades. Quero saber qual é sua essência. Quem é o ser humano que está por detrás dessa armadura? Enquanto eu o julgo, de repente começo a me ver em você,  E o que vi me incomodou. Como poderia uma pessoa sem sonhos proteger a sociedade, a não ser que fosse um robô ou uma máquina de prender? Como um professor sem sonhos pode formar cidadãos que sonham em ser livres e solidários?  Cuidado! O senhor luta pela segurança pessoal, mas o medo e a solidão são ladrões que furtam a emoção mais do que perigosos delinqüentes. Seu filho não precisa de um chefe, mas de um ombro onde chorar, um ser humano a quem possa segredar sentimentos e que o ensine a pensar. Viva esse sonho! Muitos dançam sobre o solo, Mas não na pista do autoconhecimento. São deuses que não reconhecem seus limites. Como poderão se achar se nunca se perderam? Como serão humanos se não se aproximam de si? Quem são vocês? Sim, digam-me, quem são? Sem filosofar a vida, viverão na superfície. Não perceberão que a existência é como os raios solares que despontam solenemente na mais bela aurora e se despedem fatalmente no ocaso. Alguns o aplaudiram sem entender a dimensão do seu raciocínio e sem perceber que estavam próximos do entardecer. Muitos ficavam constrangidos no primeiro momento. Não sabiam responder quem eram nem qual era seu grande sonho. Outros, mais desinibidos e sinceros, diziam: ”Não tenho sonhos”, e justificavam: ”Minha vida está uma merda!”. Outros comentavam: ”Vivo num atoleiro de dívidas. Como posso sonhar?”, e ainda outros comentavam: ”Meu trabalho é uma fonte de estresse. Tenho dores em todo o corpo. Esqueci de mim mesmo, só sei trabalhar”. Fiquei impressionado com as respostas. Percebi que a platéia que estava assistindo ao meu ”suicídio” não estava distante de minha miséria. A platéia e os atores viviam o mesmo drama.Sem sonhos, os monstros que nos assediam, estejam eles alojados em nossa mente ou no terreno social, nos controlarão. O objetivo fundamental dos sonhos não é o sucesso, mas nos livrar do fantasma do conformismo. É possível encontrar um grande amor. Só não se esqueça jamais que você poderá ter o melhor parceiro ao seu lado, mas será infeliz se não tiver um romance com a própria vida. todos esperavam um milagre, mas o vendedor de sonhos era um vendedor de idéias, um mercador de conhecimento. O conhecimento era melhor do que o ouro e a prata, encantava mais que diamantes e pérolas. Por isso, não estimulava o êxito pelo êxito. Para ele, não havia trajetórias sem percalços, nem oceanos sem tormentas. Fitando as pessoas, falou com segurança: Se seus sonhos forem desejos e não projetos de vida, certamente vocês levarão para a sepultura seus conflitos. Sonhos sem projetos produzem pessoas frustradas, servas do sistema. E não deu explicações sobre esses pensamentos, pois queria que as pessoas dançassem na pista das idéias. Fiquei reflexivo. Vivemos numa sociedade consumista, numa sociedade de desejos, e não de projetos existenciais. Ninguém planeja ter amigos, ninguém planeja ser tolerante, superar fobias, ter um grande amor. Conquistas sem riscos são sonhos sem méritos. Ninguém é digno dos sonhos se não usar suas derrotas para cultivá-los. Por estudar a história das riquezas das nações, entendi o significado sociológico desse último pensamento. Entendi que muitos dos que recebiam herança ou eram presenteados gratuitamente com fortunas haviam tido conquistas sem méritos, não valorizavam as batalhas dos seus pais, dissipavam seus bens como se fossem eternos. A herança se tornava um laço para uma vida dissoluta e superficial. Eles eram imediatistas, queriam sorver o máximo prazer do presente, sem prever futuras tempestades. Enquanto eu criticava as pessoas como vítimas do sistema e não como autoras da sua história, num ímpeto voltei-me para mim e percebi que não era diferente delas. Não entendia por que pensamentos tão simples eram tão penetrantes. Estudei complexas idéias do socialismo, mas elas não penetravam nas áreas ocultas da minha psique. Sonhei em ser uma pessoa feliz, mas tornei-me um miserável. Sonhei em viver uma vida melhor que a que meu pai viveu, mas reproduzi o que mais detestava nele. Sonhei em ser mais sociável que minha mãe, mas cultivava sua sisudez e amargura. Não usei minhas perdas para cultivar meus sonhos. Não fui digno deles. Detestava riscos, queria controlar tudo ao meu redor. A generosidade era um dos maiores sonhos que ele desejava difundir no grande hospício social. Os normais viviam em seus currais, ilhados em seu mundo, tinham perdido o sabor indecifrável de se doar, abraçar, dar uma nova chance. Generosidade era uma palavra que habitava os dicionários, mas raramente o coração psíquico. Eu sabia competir, mas não sabia ser generoso. Sabia apontar as falhas e ignorâncias dos meus colegas, mas não sabia acolher. A desgraça dos outros me excitava mais do que seus sucessos. Não era diferente dos políticos da oposição, que torciam pela autodestruição de partidos que governavam.Comecei a entender que os egoístas vivem no calabouço das suas angústias, mas os que atuam na dor dos outros aliviam a própria dor. Não sei se me arrependerei de tomar esse caminho, não sei o que me aguarda, mas vender sonhos, ainda que tenha seus riscos, talvez seja um excelente ”negócio” no mercado da emoção. A angústia de meu companheiro era tão grande, que diminuiu, pelo menos por enquanto, a percepção que eu tinha da minha miséria psíquica e das inúmeras coisas não resolvidas em minha vida. Imaginei o esforço tremendo que o vendedor de sonhos fizera para me resgatar. Não me pedira dinheiro, reconhecimento nem aplausos, mas recebeu muito, recebeu doses elevadas de prazer. Ficou tão feliz que dançou em público. Que ”mercado” fantástico! A única coisa que me pediu foi convidar-me para fazer o mesmo.O preço para vender sonhos é alto, mas você não é obrigado a pagá-lo. Tem liberdade de partir. Eu fora arrastado para uma encruzilhada. Tinha a oportunidade de virar as costas e ir para qualquer lugar do mundo. Eu, cair fora? Sempre fui teimoso, obstinado, lutei pelo que queria. Nesse momento, minha mente começou a ser invadida por um questionamento sobre o qual jamais havia refletido. Comecei a recordar o estudo sociológico que havia sobre as relações entre Jesus e seus discípulos, que muito influenciou a sociedade ocidental. Comecei a entender fenômenos psíquicos e sociais que nunca havia analisado. Comecei a pensar no poder indecifrável das suas palavras e gestos do homem Jesus para convencer jovens judeus, na flor da idade, malucos por aventuras, com famílias nucleares organizadas e negócios estabelecidos, a abandonar tudo para segui-lo. Que loucura! Seguiram no escuro um homem sem poder político notório e sem identidade visível. Deixaram barcos, amigos, casas e o seguiram sem direção. Ele não lhes deu dinheiro, não lhes deu conforto, não lhes prometeu nem mesmo um reino terreno. Que experiência arriscada! Que conflitos! Que vexames! Que perturbações viveram! Perderam tudo, por fim perderam o homem que os ensinou a amar crucificado numa trave de madeira. Morreu sem heroísmo, morreu em silêncio, encerrou seu fôlego amando, faleceu perdoando. Após sua morte, o grupo poderia ter se dissipado, mas uma força incompreensível os invadiu. Tornaram-se mais fortes depois do caos. Difundiram para o mundo a mensagem que tinham ouvido. Deram as lágrimas, a saúde, seu tempo, enfim, tudo o que tinham para a humanidade. Amaram desconhecidos e se entregaram por eles. Sob a mensagem difundida por esses jovens toscos e sem cultura clássica, as sociedades européias e depois inúmeras outras nas Américas, na África e na Ásia foram construídas. As bases dos direitos humanos e dos valores sociais foram estabelecidas. Séculos se passaram, e tudo se tornou comum. As igrejas se tornaram uma fonte excelente de conformismo e lucro. Na atualidade, centenas de milhões de pessoas comemoram confortavelmente em seus templos o Natal, a Paixão e outras datas, sem nunca terem imaginado o que é dormir ao relento, o que é receber a pecha de louco, qual o sabor de ter sua imagem social estilhaçada. Perderam a sensibilidade, não entenderam o estresse dramático que esses jovens viveram ao seguirem o enigmático Mestre dos Mestres.Não seria menos perigoso deixar a sociedade continuar sendo uma fábrica de loucura? Não seria melhor deixar as pessoas se lambuzarem com o individualismo, não seria mais confortável deixá-las serem mentes obtusas que não pensam nos mistérios da existência, mas nos superficiais mistérios dos produtos dos shoppings, dos computadores, da moda? Somos pequenos demais para fazer alguma coisa contra o poderoso sistema. Poderemos ser presos, feridos e mais caluniados ainda.  Mesmo correndo qualquer risco ser um vendedor de sonhos vale a pena, mesmo se conseguir te vender apenas uma vírgula, uma pausa na história da sua vida.

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