quarta-feira, setembro 16, 2009

VENUS




Eu gosto de lembrar aqueles tempos nus
Das estátuas que Febo banhava de luz.
O homem e a mulher em sua agilidade
Gozavam sem mentira nem ansiedade,
O dorso acariciado pela imensidão,
Exercendo a nobreza do seu corpo são.
Cibele, então fecunda, madre generosa,
Não via sua prole assim tão onerosa,
Mas, coração de loba, de ternura pleno,
Nutria o universo no seio moreno.
Do homem, elegante e forte, era lei
Honrar a natureza que o fazia rei,
Fruta virgem, louçã, livre do adoecer,
Polpa firme e bem lisa, boa de morder!

Hoje, quando o Poeta quer imaginar
Essa beleza antiga em cada lugar
Onde se vêem nus a mulher e o homem,
Sente a alma gelar em frios que consomem
Diante deste quadro de vergonha pouca.
Ó monstruosidades implorando roupa!
Ó ridículos troncos! ó caricaturas!
Ó pobres corpos tortos, flacidez, gorduras,
Presos desde criança em nós apertados
Pelos deuses do Útil, cruéis e calados!
Vocês mulheres, ai, pálidas como velas,
Que a orgia rói e nutre, e vocês donzelas,
Arrastando a herança do vício materno
E todos os horrores do vigor moderno!

Embora corrompidos, temos, é verdade,
Belezas nunca vistas na Antiguidade:
Rostos cavados pelos tumores do amor,
O encanto discreto de um certo langor.
Mas estas invenções das musas de hoje em dia
Nunca vão impedir a raça doentia
De ver na juventude um tão sublime dom
-- A santa juventude, ar simples e bom,
Olhar límpido, água bem clara e sonora
Espalhando por toda parte, a toda hora,
Como o azul do céu, o pássaro e a flor,
Seus perfumes, canções e um doce calor!

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