segunda-feira, fevereiro 13, 2012

ERA UMA VEZ - UMA SAGA 2ªparte



Inicialmente, os cavaleiros nem sequer haviam acreditado.
Todos os irmãos do Templo... presos? Porquê? A mulher não
fora capaz de o explicar. Não fazia a mínima ideia. Sabia
apenas que os membros da Ordem haviam sido presos e que os
cavaleiros estavam a ser interrogados pela Inquisição.
Pasmados, os cavaleiros tinham-na visto a arrastar-se para
junto das viajantes que rodeavam o carro, ainda a gritar-lhes
avisos e a implorar-lhes que se salvassem enquanto os
pacientes bois puxavam a carroça e as pessoas a seguiam tão
tranquila e lentamente como num cortejo. Profundamente
perturbados, os homens tinham tido em conta aqueles conselhos
ameaçadores e seguido lentamente o seu caminho, mas já não
para Paris. Haviam-se dirigido para oeste, para o ducado de
Guyenne. Fora ali, no acampamento montado com outro pequeno
grupo de Templários encontrados na estrada, que tinham
começado a ouvir relatos dos acontecimentos.
Ainda parecia inconcebível que o Papa Clemente pudesse
acreditar nas histórias propagadas contra eles, mas o Papa
estava aparentemente a apoiar a campanha de Filipe, o monarca
francês, e nada fizera para salvar a Ordem que existia apenas
para o servir, a ele e à cristandade. Essas histórias haviam
irrompido como uma onda de maré, esmagando todos os
argumentos e não dando qualquer possibilidade de defesa, isto
porque negar as acusações servia apenas para lançar todo o
peso da Inquisição sobre quem o fizesse, o que só podia
significar uma coisa, a destruição.
Ao princípio tudo aquilo parecera ridículo. Os cavaleiros
eram acusados de serem heréticos... mas como poderiam eles
ser heréticos depois de terem perdido tantas vidas na defesa
dos estados cristãos? Toda a sua razão de existência era a
defesa dos estados dos Cruzados no ultramar, na Palestina,
uma causa por que tinham lutado e morrido ao longo de
séculos, com muitos deles a preferir a morte à vida quando a
escolha lhes era proposta. Escolhiam a morte mesmo quando
eram apanhados pelos Sarracenos e estes lhes davam a
possibilidade de continuarem vivos em troca da renúncia a
Cristo. Como era possível haver alguém capaz de acreditar que
fossem heréticos?
Correra o rumor de que até as pessoas vulgares tinham tido
dificuldades para acreditar numa coisa daquelas. Ao longo de
dois séculos - desde que São Bernardo lhe dera o seu apoio
durante a cruzada - as pessoas haviam sido ensinadas de que a
Ordem era inultrapassável na sua santidade. Como era possível
que tivessem caído tão baixo? Quando enviara ordens para a
captura e prisão dos cavaleiros, o monarca vira-se forçado a
explicar por que razão empreendia uma tal ação. Era óbvio
que pressentia que, se não o fizesse, as ordens poderiam
acabar por não ser cumpridas. No Fim de contas, as acusações
eram tão chocantes que se tornavam quase inacreditáveis. O
monarca entregara uma declaração escrita a cada um dos
oficiais encarregues da captura, declaração em que acusara os
cavaleiros e a sua Ordem de crimes desumanos e diabólicos,
ordenando que fossem presos, bem como os respectivos servos,
para serem interrogados pela Inquisição. Para além disso,
todos os seus bens deveriam ser apreendidos. Nas últimas
horas daquela sexta-feira já todos os cavaleiros haviam sido
acorrentados e já os monges Dominicanos da Inquisição tinham
iniciado os interrogatórios.
Poderiam ser culpados de tais crimes? De certeza que tal não
era possível! Como podia a mais santa de todas as Ordens
tornar-se tão amoral, tão maléfica? As pessoas não conseguiam
acreditar. Todavia, a descrença transformara-se em horror
quando as confissões começaram a transpirar para o exterior.
Depois das torturas inimagináveis que a Inquisição lhes
infligira, depois de centenas deles terem sofrido as agonias
de semanas inteiras de dores ininterruptas e de muitos terem
morrido, as confissões tinham começado a ressoar nas orelhas
da populaça como fezes a escorrerem de uma fossa para irem
poluir um poço de águas limpas. A seguir, tal como é costume
com esse tipo de sujidade, os boatos tinham contaminado todos
aqueles em que haviam tocado... e a culpa fora confirmada.
Contudo, depois de verem os camaradas a perderem pés e mãos
na angústia contínua das câmaras de tortura, quem duvidaria
que acabariam por confessar fosse o que fosse para porem fim
à dor e ao horror?
A tortura durava dias e semanas intermináveis e as dores eram
incessantes nas celas de tortura criadas nos seus próprios
edifícios porque não existiam prisões suficientes para
albergarem um tão grande número de prisioneiros.
Confessaram tudo o que os Dominicanos lhes puseram na frente.
Admitiram terem renunciado a Cristo. Admitiram a adoração do
diabo.
Admitiram que tinham cuspido na cruz, a homossexualidade e
tudo o mais que pudesse pôr Fim aos tormentos. Todavia, isso
não lhes chegara... e os monges Dominicanos haviam passado
para toda uma série de novas perguntas. Tinham tantas
acusações para confirmar que as torturas prosseguiram durante
semanas. Foram muitos os indivíduos que confessaram crimes
inacreditáveis, mas isso continuou a não ser suficiente. Só
permitia que o monarca punisse indivíduos... e ele queria a
morte da própria Ordem. Por isso, as torturas continuaram.
Gradualmente, devagar, sob os contínuos e pacientes
interrogatórios dos monges Dominicanos, as admissões
modificaram-se e as declarações começaram a implicar a
própria Ordem. Os Cavaleiros passavam por rituais satânicos
de iniciação, tinham-lhes dito para adorarem ídolos e haviam
sido forçados a renunciarem a Cristo. Agora, finalmente,
Filipe possuía as suas provas. Toda a Ordem era culpada e
tinha de ser dissolvida.
Na praça, os olhos do homem eram ardentes e aguçados agora
que os recordava os amigos, os homens que treinara e ao lado
de quem combatera, homens fortes e corajosos cujo único crime
- e ele sabia-o - fora terem permanecido leais à causa.
Tinham sido tantos os mortos, tantos os destruídos por uma
dor muito pior do que tudo o que os seus inimigos sarracenos
jamais lhes tinham infligido...
Todos se tinham alistado na Ordem prestando os três votos, de
pobreza, castidade e obediência, tal como em qualquer outra
ordem de monges. Sim, porque eles eram monges. Eram os
monges-guerreiros, dedicados à proteção dos peregrinos na
Terra Santa. Contudo, desde a perda de Acre e da queda do
reino do Ultramar na Palestina - havia mais de 20 anos - as
pessoas tinham-se esquecido disso. Tinham esquecido a
dedicação desinteressada e os sacrifícios, as enormes perdas
e os perigos que os cavaleiros haviam sofrido nas suas lutas
contra as hordas Sarracenas. Já só se recordavam das
histórias sobre a culpabilidade da maior de todas as Ordens,
histórias postas a circular por um monarca avarento que
desejava apoderar-se das suas riquezas. Era por isso que
aquela multidão se encontrava ali, para testemunhar a
humilhação final, a última indignidade. Estava ali para ver o
último Grande Mestre da Ordem a admitir as culpas e a
confessar os crimes, tanto dele como da sua Ordem.
Uma lágrima, que era como a primeira gota a assinalar a
aproximação de uma tempestade, correu lentamente pela face do
homem, que a limpou com um gesto rápido e zangado. Não era o
momento oportuno para lágrimas. Não estava ali para lamentar
a perda da Ordem. Isso podia ficar para mais tarde. Estava
ali para assistir tanto por ele como pelos amigos, para
testemunhar a confissão do Grão-Mestre e descobrir se todos
haviam sido traídos.
Ao terem conhecimento de que aquele espetáculo público iria
ter lugar, ele e os amigos haviam discutido o assunto
prolongadamente durante um encontro realizado três dias
antes. Os sete, homens de diferentes países, os poucos que
restavam, os poucos que não tinham ido para mosteiros ou
entrado para uma das outras ordens, tinham-se sentido
confusos e desesperados por causa daquele inferno na Terra.
Teriam realmente existido tais crimes, tais obscenidades? Se
o Grão-Mestre confessasse, então isso significava que tudo o
que haviam defendido estava errado? A Ordem poderia ser
corrupta sem que o soubessem. Parecia-lhes impossível.
Contudo, seria igualmente incrível se nada daquilo fosse
verdade, pois implicaria uma conivência entre o monarca e o
Papa para a destruição da Ordem. Seria possível que a Ordem
pudesse ser tão atraiçoada precisamente pelos seus dois
principais patronos? A sua única esperança estava na
possibilidade de uma retratação, numa admissão de erro, e
também na hipótese da Ordem vir a ser considerada inocente e
reconduzida à sua posição de honrosos serviços ao Papa.
Os sete haviam discutido as opções e tinham concordado com o
alemão de Metz, que propusera o envio de um deles a
testemunhar o acontecimento para depois os informar. Não
podiam confiar nos relatos de outros. Precisavam de ter
alguém presente, uma pessoa que pudesse ouvir as declarações
para lhes contar o que fora dito, para que pudessem decidir
por si mesmos se as acusações eram ou não verdadeiras. O
homem que se encontrava encostado à parede da catedral fora o
que tirara a palhinha mais curta.
Todavia, ainda continuava mistificado, incapaz de compreender
o que se passava, e não tinha a certeza de conseguir dedicar
ao assunto toda a concentração necessária. Sentia-se
perturbado, porque era inacreditável, era impossível que a
Ordem em que servira fosse tão horrivelmente perversa. Como
era possível que o dedicado grupo de cavaleiros que
conhecera, e de que ainda se recordava, pudesse ser tão
deformado, tão envilecido? Tinham entrado na Ordem para
poderem prestar um melhor serviço a Deus, mais como soldados
do que como monges. Quando um Templário decidia abandonar a
Ordem, só o fazia para passar para uma outra ainda mais
estrita, para os Beneditinos, para os Franciscanos, ou para
qualquer outro grupo de monges a viver na mesma pobreza
forçada, escondidos do mundo. Como era possível que a Ordem
houvesse sido tão grandemente atraiçoada?
Limpou outra lágrima e caminhou por entre a multidão,
apático, com o rosto fechado a revelar o medo e as
preocupações. Espreitou para as bancas do mercado durante
alguns minutos sem na realidade prestar atenção às
mercadorias, até descobrir que o seu pequeno passeio sem
destino o levara de volta à plataforma, onde se virou para a
enfrentar de uma maneira mais frontal, como que a desafiá-la
a permitir a destruição da Ordem.
Erguia-se na sua frente como um patíbulo, uma grande
construção de madeira com troncos novos que brilhavam um
pouco quando o Sol os iluminava. De um dos lados existia uma
série de degraus que conduziam ao estrado, lá em cima.
Enquanto o olhava, o conjunto como que estremeceu. Conseguia
sentir o mal quase como uma força, mas não era o mal da sua
Ordem, mas sim o daquele feio palco onde ele e os seus amigos
iriam ser denunciados. Agora, sem saber muito bem como, tinha
a sensação de que era inútil alimentar esperanças. Não
haveria reconciliação, nenhum reatamento das glórias
passadas. Essa sensação invadiu-o, e era como se
anteriormente ainda não estivesse verdadeiramente consciente
das profundezas em que a Ordem caíra, como se nos últimos e
difíceis anos tivesse mantido um pequeno clarão de esperança
de que a Ordem pudesse ser salva. Mas agora, ali, naquele
lugar, era como se essa minúscula chama tivesse morrido e
sentisse o desespero como se fosse a dor de uma ferida de
espada no seu ventre.
A plataforma atraía a sua atenção horrorizada. Erguia-se na
sua frente como um símbolo do falhanço absoluto do Templo,
obstinada e impassível, como se troçasse da natureza
transcendente da honra da Ordem quando comparada com o seu
próprio poder para a destruir. Aquilo não era um lugar de
confissão, era um de execução, era o local onde a sua Ordem
ia morrer. Tudo aquilo que ele e os milhares de outros
cavaleiros tinham defendido ia finalmente morrer ali, naquele
dia. Quando a compreensão desse facto o invadiu foi como se o
atingisse fisicamente, fazendo-o estremecer como se tivesse
aparado um golpe. Não havia proteção, não havia defesa
contra a implacável maré de acusações que os iria destruir a
todos. Era inevitável e o resultado ia ser a destruição
absoluta do Templo.
Porém, mesmo enquanto o compreendia, mesmo enquanto se
apercebia da chegada do fim, um fim que era uma certeza,
também sentia a esperança a debater-se novamente dentro do
seu peito, tentando libertar-se dos grilhões do desespero que
o envolviam com tanta rigidez.
Estava tão emerso na sua própria infelicidade que ao
princípio nem sequer deu pela alteração nos ruídos da
multidão. Ouviram-se gritos entre a populaça quando os
condenados apareceram, gritos que foram imediatamente
seguidos por troças, mas tudo isso esmoreceu e morreu como se
as pessoas ali em volta reconhecessem as terríveis
implicações da ocasião. A calma foi crescendo até ao momento
em que a praça ficou quase silenciosa, com a multidão de pé e
à espera dos homens que avançavam para desempenharem os
papéis principais naquele triste drama. Ainda não se
encontravam completamente à vista das testemunhas, ainda não
tinham chegado à plataforma mas o homem percebia que se
aproximavam por causa do modo como as pessoas junto à
plataforma se começaram a agitar, empurrando-se e
acotovelando-se para conseguirem ver melhor. Entretanto havia
mais gente a chegar à praça, pessoas que tentavam abrir
caminho até à frente, atraídas pelo súbito silêncio e pelo
aumento da agitação.

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