domingo, fevereiro 12, 2012

ERA UMA VEZ - UMA SAGA 1ªparte



Naquela manhã havia uma multidão amontoada em frente da
grande catedral de Notre Dame, sobre a multidão pairava uma
tensa expectativa, uma espécie de pressentimento contido,
como se as pessoas soubessem que o que iam ver não era apenas
mais uma humilhação pública de um criminoso.
Tratava-se de um acontecimento que até podia ser considerado
como sendo mais importante do que uma execução, e parecia que
o povo de sabia que a ocasião iria ser recordada
durante séculos uma vez que as pessoas haviam aparecido aos
milhares para assistirem. Agora, toda aquela gente aguardava
com uma expectativa semelhante à de uma multidão instalada à
beira da fossa dos ursos e à espera que lhes atiçassem os
cães.
Nunca a multidão seria tão densa se se tratasse de homens
vulgares, de gatunos ou de ladrões. Os parisienses, tal como
a maior parte dos habitantes das cidades do Norte, gostavam
de se amontoar para assistir aos castigos impostos aos
criminosos enquanto gozavam a atmosfera de Carnaval, bem como
o vivo e buliçoso comércio do mercado. Contudo, aquele era um
dia diferente e parecia que a cidade inteira se encontrava
ali para assistir ao fim de uma Ordem que todos haviam
reverenciado durante séculos.
De vez em quando, o Sol brilhava por entre as nuvens e
lançava breves clarões de calor sobre as pessoas reunidas na
praça. No entanto, durante a maior parte do tempo, a multidão
aguardava sob um céu cinzento de chuva e carregado de pesadas
nuvens. Aqueles clarões intermitentes limitavam-se a aumentar
ainda mais a sensação de depressão e de melancolia, como se
as súbitas explosões de luz solar troçassem dos homens e das
mulheres que se agitavam lentamente de um lado para o outro,
pondo em destaque o ambiente lúgubre que os rodeava. Contudo,
por outro lado, quando o Sol espreitava por trás da sua
cobertura e dava brilho à área, também punha em relevo as
cores das roupas e dos estandartes, afastando momentaneamente
a frieza daquele dia de Março e dava a toda a área uma aura
de alegria estival, como se os homens e as mulheres
estivessem ali para uma feira e não para a destruição de
milhares de vidas. Era como se o Sol pretendesse depreciar a
gravidade dos motivos que tinham dado origem ao ajuntamento e
tentasse aligeirar os espíritos de toda aquela gente com o
seu calor dador de vida.
Todavia, pouco depois, o Sol voltava novamente a ocultar-se
por trás das nuvens, tal como um homem a espreitar em busca
de um qualquer perigo antes de voltar a esconder-se no seu
abrigo, como se também ele se encontrasse demasiado nervoso e
receoso quanto às possíveis consequências daquele dia. Para o
homem alto e trigueiro que permanecia encostado contra a
parede da catedral, tanto aquelas nuvens escuras como os
súbitos clarões de luz serviam apenas para aumentar ainda
mais a sua sensação de irrealidade e de abatimento.
Era um homem seco de carnes e elegante, com um ar arrogante,
mas que no entanto parecia curiosamente contido no meio das
pessoas vulgares que se encontravam à sua volta, como se não
estivesse habituado à companhia daqueles homens e mulheres.
Tinha um corpo volumoso oculto sob o manto e poderia parecesse
com um daqueles cavaleiros itinerantes tão vulgares na
altura mas que, tendo perdido o seu senhor, deixara de
possuir rendimentos ou uma razão para a sua existência. Não
envergava um traje de batalha nem o uniforme de um grande
senhor, com uma orgulhosa insígnia bem à vista, mas sim uma
túnica gasta e suja por baixo de um manto de lã cinzenta.
Para além disso, parecia ter passado muitos dias e noites
sobre a sela ou a dormir nos descampados. Porém, a sua mão
nunca permanecia muito longe do punho da espada e estava
sempre pronta para o agarrar, como se esperasse um ataque de
um momento para o outro e se encontrasse constantemente
alerta, embora os olhos raramente pousassem nas pessoas que o
rodeavam. Era quase como se soubesse que nenhum dos homens
que se encontravam por perto constituía uma ameaça e se
sentisse suficientemente a salvo dos humanos. Conservava os
olhos sempre fixos na plataforma improvisada erguida ao lado
da parede da catedral, como se essa construção em madeira
simbolizasse, por si só, todas as ameaças.
Tudo começara há muito, muito tempo, mas no entanto ainda se
conseguia recordar do dia em que o inimaginável acontecera:
fora na sexta-feira, 13 de Outubro do ano de 1307. Era uma
data que sabia que nunca iria esquecer, uma data inventada
pelo próprio diabo! Oh, tivera muita sorte, encontra-se fora
do Templo com três companheiros, de visita ao navio que se
encontrava na costa, pelo que escapara às prisões que tinham
apanhado tantos dos membros da sua Ordem. Nem sequer ouvira
falar nesses acontecimentos até já estar de regresso a Paris,
na altura em que, nos arredores de uma pequena aldeola, fora
avisado para não prosseguir viagem porque, se regressasse à
capital, também seria preso e interrogado pela Inquisição.
Fora uma mulher quem o avisara a respeito dos crimes que
estavam a ser cometidos contra a sua Ordem. O grupo, que o
incluíra a ele, aos amigos e aos respectivos escudeiros,
detivera-se numa das bermas da estrada para comer quando a
mulher os avistara. Era pequena, tinha um rosto cor de cinza
e parecera-lhe uma pessoa bem-nascida por causa das roupagens
ricas - embora sujas e manchadas pela viagem - e encontrava se
incluída no grupo de seis outras que rodeavam o carro de
bois que passara por eles. Tinham passado junto ao tranquilo
grupo de cavaleiros e a mulher exibira um aspecto
desesperançado e de profunda infelicidade enquanto seguia ao
lado do carro com a cabeça baixa, a tropeçar de dor e de
tristeza. Todavia, levantara a cabeça, tivera um relance do
grupo através das lágrimas e sob ressaltara-se ao ver os
cavaleiros barbudos sentados à beira da estrada, com os elmos
tirados. Inicialmente parecera invadida por uma espécie de
esperança louca e ficara de boca aberta, com os olhos a
saltitarem rapidamente de um para outro daqueles homens que
comiam tranquilamente, para logo de seguida correr para eles
com o optimismo a dar lugar ao desgosto, chorando
ruidosamente e ignorando os gritos das companheiras.
Começara a chamá-los ainda antes de se aproximar mais do que
alguns passos, e fizera-o com uma voz quebrada e uma fala
balbuciante que provocara o espanto dos cavaleiros e os
levara a interromper a refeição e a perguntarem a si mesmos
se seria uma louca. Tinham dado ouvidos às suas tiradas
chorosas... e as palavras da mulher haviam-nos atingido com a
forma de um golpe de maça. O filho também era Templário,
dissera-lhes, e que pretendia ajudá-los e protegê-los.
Precisavam de evitar a capital e fugir para um lugar seguro,
para a Alemanha ou Inglaterra, para qualquer lado exceto
Paris. Não estariam a salvo em Paris, e talvez até em nenhum
lugar de França. Os cavaleiros tinham-se mantido sentados,
surpreendidos, e a mulher falara com o frágil corpo abalado
pelos soluços, por causa de um filho que sabia que estava a
ser torturado e que provavelmente não voltaria a ver, exceto
talvez na fogueira.
Segue.>>>

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