Antônia morava em São Gonçalo (RJ), casada com um trabalhador da empresa local de energia elétrica, com dois filhos. Não tinha uma vida de conto de fadas—afinal, vivia em uma favela—mas seu marido tinha carteira assinada e certa estabilidade. Isto até resolver se tornar religioso e tomar ao pé da letra os preceitos de sua igreja. O estado emocional de pregação permanente do marido de Antônia tornou impossível a vida do casal: separaram-se mas continuaram a viver no mesmo lugar.
Depois da separação, o marido resolveu levar a moralidade religiosa aos traficantes de drogas da localidade e estes terminaram por matá-lo e, como se isto não bastasse, começaram a perseguir Antônia, fazendo-lhe ameaças. Tal situação levou-a a mudar-se para Nova Friburgo, há cerca de quatro anos. Sem emprego definido, sem a pensão a que os filhos teriam direito, Antônia foi tocando em frente como faxineira até morrer nas chuvas de janeiro de 2011. Houve quem tentasse ajudá-la, o escritório-modelo de uma faculdade de Direito empenhou-se por conseguir a pensão de seus filhos, enquanto ela própria ia à luta. Estes, aliás, uma menina de 13 anos e um menino de 8, voltaram para São Gonçalo.
Enquanto se desenrolava essa tragédia de Antônia, começavam a se mostrar os efeitos financeiros de uma crise em que os donos do mundo procuram dar um jeito … dar um jeito para tudo continuar como sempre, isto é, com todo o esforço produtivo voltado para o benefício de meia dúzia de privilegiados. Desde o dia 17 de setembro, milhares de pessoas têm se manifestado em Wall Street, onde funciona a bolsa de valores de Nova York, e abriga o centro financeiro dos Estados Unidos, protestando contra o modo de gestão do mundo gerador da crise atual. Repudiam a parcela de “1% de ricaços dos EUA que exploram 99% da sociedade”, minoria esta tida como responsável pela crise.
Entre as inúmeras figuras do mundo acadêmico, das artes e dos espetáculos a apoiarem os manifestantes nova-iorquinos está o pensador Noam Chomsky, de 83 anos, professor de linguística do Instituto de Tecnologia de Massachussets. Disse ele: “Wall Street e as instituições financeiras também praticam em impunidade quase completa as suas atividades nefastas: são não só ‘grandes demais para quebrar’; também são ‘grandes demais para a cadeia’. Os corajosos e honrados protestos em curso em Wall Street devem chamar a atenção pública para essa calamidade e levar a esforços concentrados e dedicados para superá-la e orientar a sociedade para uma via mais saudável”.
A tragédia da existência de Antônia estava anunciada pela precariedade de suas condições materiais e estas foram largamente propiciadas pelo modo como o fazer econômico está estruturado no planeta. Foram muitas décadas de desinvestimentos na vida humana em favor das tais instituições financeiras. São tragédias previstas por quem, como Noam Chomsky, desejou e deseja a vida social em “uma via mais saudável”.

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