terça-feira, setembro 13, 2011

CPIs no Brasil



Ai dos que fazem da escuridade luz, e, da luz, escuridade
A chegada da CPI a uma determinada localidade, fosse ela uma cidade de porte cosmopolita ou provinciana, desencadeava uma série de acontecimentos. Normalmente, o Ministério Público se sentia motivado a denunciar criminosos, a pedir prisões; a Polícia Federal se sentia prestigiada, e a imprensa em geral criava um clima de denuncismo que atemorizava os criminosos.
A sociedade brasileira, e talvez qualquer sociedade, entroniza os abastados, sem se preocupar em especular a origem de sua riqueza. Não faz juízo de valor a esse respeito. Algumas revistas, cuja matéria é, usualmente, gente famosa, e outros veículos de comunicação, elegem seus ícones com base em fama e riqueza.
A CPI chegava em cada cidade, procurando a origem de riquezas suspeitas, denunciando o enriquecimento ilícito, apurando as conexões do crime organizado que criam as fortunas de pessoas notáveis da sociedade. Talvez esse tenha sido um dos méritos da CPI. A CPI denunciou os criminosos enriquecidos ilicitamente.
Não que a CPI estivesse totalmente imune às influências de ricos e famosos, mas, majoritariamente, a comissão não atentou para essas questões. Algumas situações já estabelecidas foram duramente golpeadas pela CPI, como no caso de Luigi Ramos – o da trituradora –, fato que deu ao povo de Rondônia a possibilidade de acreditar em viver livre de déspotas criminosos. A prisão dele e outros mais, além disso, passava a mensagem clichê de que o crime não compensa. De que a riqueza de origem ilícita não é aceitável.
Embora não tenha tido a capacidade de aplaudir e valorizar o íntegro, a CPI teve esse mérito de denunciar o criminoso e de passar a mensagem de que nem toda riqueza é boa. Nas diligências, nos depoimentos, nas prisões, nas acareações e nos interrogatórios, estava implícita a mensagem simples de que o crime é ruim, de que é errado enriquecer de maneira ilícita.
Esse maniqueísmo da CPI, a despeito de alguns equívocos que provocava, foi responsável pelo grande feito daqueles deputados.
Deixando de lado as evidentes e indesejadas contradições internas da CPI, vislumbrei, num quadro maior, os parlamentares deixando-se usar por uma boa causa, apregoando valores que dão coesão ao tecido social de uma nação.
Fazer afirmações simplistas como estas pode soar pueril, mas por mais que de fato o seja, é preciso que no imaginário de todas as crianças, e mesmo dos adultos desta nação, se crie uma dicotomia clara entre o que destrói e o que constrói uma sociedade, e, enfim, uma nação. Roubar é ruim, trabalhar honestamente é bom; enriquecer só é bom se não for ilicitamente. Simples e claro.
Em Palmas, o presidente da Assembleia Legislativa e a presidente do Tribunal de Contas do Estado eram pessoas que transitavam na sociedade com extrema desenvoltura. Faziam parte da sociedade local como quaisquer outros membros da elite mais aquinhoada do local, embora se soubesse como tinham enriquecido ilicitamente. Possivelmente, boa parte das pessoas que os rodeavam gostariam de conseguir ser tão bem sucedido quanto eles. De fato, ao aceitá-los, a sociedade local não só os absolvia como ainda os elegia como modelos a serem seguidos. A CPI, quando por lá passou, disse que as coisas não eram bem assim. Aquelas eram pessoas que mereciam ser punidas pelos erros que cometeram, “não sigam os exemplos que elas dão”.
Os dois, ao se sentarem no banco das testemunhas, haviam sido impiedosamente acusados pelas denúncias que pesavam contra eles. A imprensa noticiou e a percepção de muitas pessoas começou a mudar; ali não estavam pessoas bem sucedidas, mas dois acusados por diversos crimes, que poderiam parar na cadeia a qualquer hora.
Não vou adentrar na questão da efetividade do Poder Judiciário para fazer com que eles viessem a pagar pelos ilícitos cometidos. Interessa-me aqui uma questão preliminar, e bem mais simples, ou seja, que eles fossem conhecidos como criminosos, e, por isso, repudiados.
Mas não só a pregação constante que opunha bem e mal gerava bons resultados. O trabalho teria sido inútil se a CPI não tivesse sido pródiga em indiciar, quebrar sigilos, condenar e prender. Um criminoso, passando pelo corredor que levava do auditório ao prédio da Procuradoria do estado do Tocantins, ao sair do interrogatório, confidenciou a seu advogado que sentiu medo de ir preso.
Por mais que a CPI cantarolasse, a cantiga do homem honesto não produziria efeitos se na canção do criminoso não houvesse a possibilidade do desmascaramento, da execração pública e – até mesmo – da prisão.
A CPI mostrou que não existe nada de novo debaixo do sol. E soube entender que o embate constante que denunciava tinha a ver, principalmente, com valores. Os parlamentares membros da CPI, embora muitas vezes eles mesmos dominados por sentimentos e atitudes reprováveis, deixaram-se utilizar como instrumentos de uma boa causa, que, a despeito de inúmeras críticas, produziu bons resultados para a nação.
As pregações de Maurício Ramos foram o norte seguido que sintetizou essa lição. Em determinados momentos catequisava traficantes condenados:
- Você escolheu o caminho do mal, mas ainda pode mudar… Eu poderia ter sido como você, mas fiz outra opção… Essa sua vida não vale a pena, é um inferno…
Anos mais tarde, o presidente mais popular de nosso país golpeou de maneira rude essa mesma nação destruindo valores que apregoava antes de sua eleição.
Em 2005, em Paris, referindo-se ao escândalo do mensalão, ele afirmou que seu partido só fez aquilo que todos os demais partidos faziam, provocando o início de um desmonte ético que parece não ter fim. Como ele e seu partido têm “alguma sensibilidade social” – em relação a seu antecessor, conforme dizem seus defensores, sigamos em frente – é um mal menor
- A verdade ainda vai aparecer…
A verdade apareceu, era aquela mesma que se soube desde o início, e ainda está aí para ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Quanto ao fato de que o partido do presidente tenha se envolvido nas mesmas mazelas que os demais partidos, o fato em si não tem o poder destrutivo desse desmonte conceitual e ético que o presidente ele impingiu ao país ao deixar claro que considerava normal a compra de parlamentares com dinheiro público desviado para votar naquilo que o governo queria aprovar. Esse momento da vida da nação ainda precisa ser mais bem estudado, para que se conheça o alcance das consequências que gerou.
O presidente messiânico ainda aprofundou a tragédia que foi essa perda de valores iniciada com o episódio do mensalão, nos anos a seguir, levando nosso povo, encantado com seu carisma, a deixar de distinguir entre aquilo que constrói e aquilo que destrói uma nação. A corrupção destrói.
Nosso país se aprofunda nas contradições denunciadas pelo profeta Isaías que ecoam do passado nos condenando nos dias de hoje: somos a terra na qual os homens ao mal chamam bem e ao bem, mal; fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce por amargo.
Ai dos que assim fazem, proclama o profeta.
A CPI do Tráfico de Cebolas, a despeito de suas próprias contradições e pecados, teve o mérito de chamar o bem de bem, o mal de mal, a luz de luz, a escuridade de escuridade, o amargo de amargo e o doce de doce. Talvez tenha sido esse o seu legado.

sábado, setembro 10, 2011

LIBERDADE OU SEGURANÇA - VERDADE OU MENTIRA



O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, não é o que se pode considerar um hóspede bem-vindo nos EUA, mas no ano passado ele fez por onde merecer o ódio dos republicanos. Em plena sessão plenária das Nações Unidas, disse com todas as letras o que cineastas, jornalistas e parlamentares às centenas já apregoam nas redes sociais há uma década e acusou a direita norte-americana de promover a maior fraude de todos os tempos com os supostos atentados às Torres Gêmeas.
Já em 2004, o cineasta Michael Moore produziu um especial sobre o 11 de Setembro. O filme tem cerca de duas horas e lotou as salas de exibição nos Estados Unidos e nos demais países onde foi exibido. Originalmente ele foi produzido por uma empresa filiada à Disney Produções, contudo, a empresa se recusou a exibi-lo, quando viu o resultado final. A recusa é fácil de entender porque a Disney tem sua sede na Flórida, Estado lhe confere várias isenções fiscais e o irmão do presidente Bush, Jeb, era o governador do Estado.
Michael Moore venceu a batalha. A Disney manteve sua posição de não exibir o filme, mas concordou em vendê-lo para outra produtora. O documentário trazia denúncias gravíssimas sobre como o presidente Bush levou o Congresso e as pessoas a pensarem que Saddam Hussein teria alguma coisa a ver com os atentados em Nova Iorque. Mas o enfoque principal do filme é uma bomba para George W. Bush. Ele diz claramente que a família Bush teria negócios com a família Bin Laden.
É exibida uma relação de vôos que saíram dos EUA com destino à Arábia Saudita levando 24 pessoas da família de Osama Bin Laden, no dia 13 de setembro, mesmo com a proibição de todos os vôos nos dias seguintes ao atentado. A Halliburton, empresa que o vice-presidente, Dick Cheney, presidiu por cinco anos também é citada. Várias pessoas dão depoimento sobre os enormes lucros que a empresa obteve desde que os EUA invadiram o Iraque.
Cenas de iraquianos mortos e feridos dão o toque chocante do filme. Há uma passagem que mostra o terror de uma família que tem sua casa invadida no meio da noite por marines. O presidente é mostrado vezes como um idiota completo, vezes como incompetente e outras vezes como alienado. Os soldados norte-americanos também dão declarações. Eles mostram o CD de música que é colocado nos tanques de guerra e a música é transmitida para o capacete. Ao melhor som do heavy metal eles dizem que isso os excita a atacar o inimigo. O documentário faz sérias denúncias e faz com que quem o assiste pense várias vezes sobre os motivos e as conseqüências da guerra.
Outras tantas produções se esmeram em mostrar como as Torres Gêmeasforam implodidas, junto com o edifício ao lado, o WT7, logo após o lançamento dos aviões nos edifícios. Da mesma forma, tentam provar que o Pentágono, em Washington DC, foi atingido por um míssil e não por um avião. Um dos documentários chega a mostrar o repórter da rede norte-americana de TV CNN dizendo que “não há asas” nos restos em chamas do petardo que acertou uma área em construção do complexo militar norte-americano.


“Não se trata de estabelecer se a guerra é legítima ou não. A vitória não é possível. A guerra não é feita para ser vencida, é feita para não acabar nunca”. George Orwell, em 1984

quinta-feira, setembro 08, 2011

FRONTEIRA DO PENSAMENTO



O mundo pós-moderno, a condição social
O que aconteceu no século 20, foi uma passagem de toda uma era na história mundial, ou seja, da sociedade de produção para sociedade de consumo.
Por outro lado, houve os processos de fragmentação da vida humana.
Quando eu era jovem, já a algum tempo, ficávamos impressionados quando nos dizíamos que precisávamos de um projeto de vida, temos que selecionar um projeto de vida, temos que prosseguir passo a passo, de forma consistente, ano após anos chegando cada vez mais próximos desse ideal.
Agora, conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você.
Nós temos grandes dificuldades em adivinhar o que vai  acontecer conosco no ano que vem.
O projeto de vida de uma vida inteira é algo difícil de acreditar.
A vida é dividida em episódios, não era assim no inicio do século 20.
As sociedades foram individualizadas, em vez de se pensar em termos de a qual comunidade se pertence, a qual nação se pertence, a qual movimento político se pertence etc, tendemos a redefinir o significado de vida, o propósito de vida, a felicidade na vida para o que esta acontecendo com uma própria pessoa, as questões de identidade, que tem um papel tremendamente importante hoje no mundo.
Você tem que criar a sua própria identidade, você não à herda.
Não apenas você precisa fazer isso a parti do zero, mas você tem que passar sua vida, de fato, redefinindo sua identidade.
Porque os estilos de vida, o que é considerado ser bom para você e ruim para você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam tantas vezes na sua vida.
Se eu tentasse listar as coisas que saíram de moda a este respeito, que mudaram nos 50 anos na minha vida, provavelmente eu levaria varias horas aqui apenas para listar todas elas.
Então, tudo isso mudou, muitas mudanças, não apenas a passagem do totalitarismo para a democracia, mas muitas outras coisas e receio que não possamos, realmente, dizer qual dessas mudanças é a mais duradoura e vai influenciar a vida das próximas gerações dos nossos netos ou bisnetos, não consigo dizer se foi o inicio de uma nova forma de vida que vai durar séculos ou se é um período de transição de um tipo de ordem social para outro tido de ordem social.
Quando você esta num período de transição, fica muito difícil imaginar outro tipo de solução estável um acordo de convivência humana.
Mas isso vem mais cedo ou mais tarde e até mesmo esta pergunta não dá para responder.
Eu acredito que, com algum grau de responsabilidade, posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis.
Uma é que multiplicamos, nós, a humanidade no planeta, as conexões, as relações, as interdependências, as comunicações, espalhadas em todo o mundo.
Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros.
O que ocorre  no Egito, Líbia ou na Malásia quer você saiba ou não, sinta ou não, tem um tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo e vice –versa, estamos todos no mesmo barco.
Esta é a primeira vez na historia em que o mundo é realmente um único país, em certo sentido.
A segunda questão é que aproximadamente após 300 anos de historia  moderna, nossos antepassados decidiram assumir a natureza sob a gestão humana na esperança de que eles fariam com que a natureza absolutamente obedecesse às necessidades humanas e teriam pleno controle do que acontecesse no mundo.
Agora, isso acabou porque, no resultado dos nossos próprios sucessos, as nossas respostas para os nossos sucessos o desenvolvimento da tecnologia moderna, a eficiência ou a nossa capacidade de produzir cada vez mais, alcançar todos os tipos de recursos naturais do planeta no resultado de todo esse tremendo sucesso da ciência e da sociologia, chegamos muito perto do que, agora, entendemos serem os limites de suportabilidade do planeta.
Eu sou um humilde ser, eu não tenho habilidades proféticas aqui, eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia.
Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver, eu só posso lhe dizer quais são os perigos, hoje para a democracia.
Um se refere a quais são as dimensões do divorcio entre o poder e a política, porque, se esse for o caso, então o Estado, a única instituição política que temos, nós não temos uma instituição política global, o Estado não tem poder suficiente para manter todas as promessas que os Estados 50 anos atrás, fizeram aos cidadãos, e essa foi a “era de ouro” da democracia.
Nos 30 anos do pós-guerra, ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal.
Agora a democracia esta em decadência, cada vez menos pessoas estão realmente convencidas de que seja uma coisa boa, e tem duvidas a respeito da qualidade da democracia, Por que? Simplesmente porque o Estado relativamente sem poder consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos.
O que os Estados estão fazendo, com muito poucas exceções, isso é, o que a maioria dos Estados estão fazendo é subcontratar muitas funções que o Estado deveria desempenhar, quem sabem talvez aqui já estou envolvido em profecia, nós inventemos uma democracia global, em algum momento e essa seria uma solução radical, principalmente porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos que eu mencionei anteriormente, certo?  Então as gerações futuras terão que inventar, um equivalente global das invenções dos nossos antepassados, eles inventaram a democracia representativa de âmbito nacional parlamentos modernos, eles inventaram a jurisdição e não leis locais, tradicionais, habituais, o direito consuetudinário mas um código de direito unificado para todo o país, eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.
Se Aristóteles fosse convidado a ir à um prédio de qualquer parlamento contemporâneo se espantaria.
Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito de democracia a descrevê-la, certo? Ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem depois votam e chegam a algum acordo.
Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia, ele iria rir, porque a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era as pessoas apenas indo ao mercado brigando entre si e chegando a uma resolução.
O que significa que a democracia é uma noção que se adquire com o tempo, na historia, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias.
Então, uma coisa de que eu posso ter certeza é de que se vocês realmente inventarem equivalente globais para a democracia do Estado-nação, então será uma democracia, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos apenas maiores, não serão semelhantes a essas instituições, porque essas instituições que agora chamamos democráticas, foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.
Castoriadis prossegue e diz que o individuo autônomo e a comunidade autônoma política só podem existir juntos, um precisa do outro, você não pode ser um individuo numa sociedade tirana, numa sociedade totalitária.
Não somos realmente indivíduos.
Deve haver uma cooperação mutua entre as duas autonomias, foi muito bonito, mas o perigo veio de um lado inesperado.
Quando Castoriadis escreveu suas palavras, ele escreveu contra o totalitarismo da época.
Bem de novo peço desculpas por ter que lembrar o passado pictórico, mas quando eu era jovem, eu temia que todo o perigo viesse da esfera publica, George Orweel, de forma memorável colocou isso da seguinte maneira: “Nós temos medo da bota de um soldado prensando um rosto humano”.
Muito bem, isso era um perigo, sem duvida alguma; Nossos antepassados e parte da minha própria geração conseguiram superar esse perigo, afastá-lo, nós realmente não temos mais medo como acontecia em outros tempos da individualidade ser oprimida pelos choques vindos de cima como a policia política etc.
Há alguns vestígios disso, mas bastante aliviados ou mitigados por comparação; Entretanto, o perigo para esta autonomia veio de outro lado, da esfera do privado e do individuo, a maior aproximação contemporânea, da agora pós-moderna, do lugar onde a democracia foi feita, refeita, continuada, desenvolvida e protegida a maior aproximação disso são os talk shows na televisão.
É onde as massas assistem, participam, telefonam, enviam perguntas, mensagens etc.
Algo semelhante ao que se fazia na antiguidade, ao olharmos para isso, vemos que eles não estão discutindo os nossos interesses compartilhados, não estão discutindo o bem-estar da sociedade, não estão discutindo sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas que todos nós sofremos na sociedade atual.
Eles apenas confessam, em última analise os problemas privados e bastante íntimos.
Ehrenberg, sociólogo Frances afirmou que em sua opinião a revolução pós-moderna começou numa quarta-feira à noite num outono da década de 80, quando uma certa Vivenne, uma mulher comum na presença de 6 milhões de telespectadores, declarou que nunca ter tido um orgasmo durante seu casamento, porque seu marido, Michel, sofre de ejaculação precoce.
Começo da revolução, por que começo da revolução? Porque, repentinamente agora as pessoas começavam a confessar coisas que eram a personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você for católico, ao padre, no confessionário ou aos seus amigos realmente muito chegados ou realmente muito íntimos, mas você não iria a praça publica anunciar para todos.
Então agora foi conquistada, não pelos regimes totalitários, mas exatamente pela privacidade por coisas que anteriormente eram privadas no confessionário que é a personificação a encarnação da intimidade e da privacidade, você conversa diretamente com Deus, é um segredo absoluto.
Um viciado no Facebook me segredou, não segredou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia, minha resposta foi que nos quase 50 anos que vivo, não tenho 500 amigos, eu não consegui isso com laços humanos, então, provavelmente, quando ele diz “amigos” eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa são coisas diferentes.
Quando eu era garoto, eu nunca tive o conceito de “redes”, eu tinha o conceito de laços humanos de comunidades esse tipo de coisas, mas não “redes”, qual a diferença entre comunidades e redes? A comunidade precede você, você nasce numa comunidade.
Por outro lado, temos a rede, o que é uma rede?, A rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes, uma é conectar e a outra é desconectar.
E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo esta exatamente ai, que é tão fácil de desconectar.
É fácil conectar, fazer amigos, mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar, imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, comportamento online, conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho.
Então romper relações é sempre um evento muito traumático, você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com freqüência e mesmo assim você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc.
É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressionar delete e pronto, em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanha você terá outros 500 e isso mina os laços humanos.
Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição, benção porque é realmente prazeroso, muito satisfatório ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para amizade no Facebook, então é uma benção.
Eu acho que muitos jovens, não tem nem mesmo  consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram, esse tipo de situação, por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço você espera ficar lá para sempre, você jura, você faz um juramento, até que a morte nos separe, para sempre, o que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro, talvez amanha ou no mês que vem, haja novas oportunidades, agora você não consegue prevê-las e você não será capaz de pegar estas oportunidades, porque você ficará preso, preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.
Então é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários.
Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo, de que há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz.
Um é segurança e o outro a liberdade, você não consegue ser feliz, você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escravidão, liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso.
Então, você precisa dos dois, entretanto, o problema é que ninguém ainda, na historia e no planeta encontrou a formula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade.
Cada vez que você tem mais segurança você entrega um pouco da sua liberdade, não há outra maneira.
Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte de sua segurança, então, você ganha algo e você perde algo.
Há 81 anos, Sigmund Freud publicou um livro famoso e tremendamente profundo e influente intitulado, “O mal-estar da civilização”, ele diz que a civilização é sempre uma troca ou seja, você dá algo de um valor, para receber algo de outro valor.
E ele disse e escreveu isso nos anos 1920, naquela época, ele disse que o problema deles da velha geração foi que eles entregaram liberdade  demais em prol da segurança, e estou profundamente convencido de que se Freud estivesse escrevendo este post agora no meu lugar, ele provavelmente repetiria que toda civilização é uma troca, mas seu diagnostico seria exatamente o oposto, que os nossos problemas hoje derivam do fato de que nós entregamos demais a nossa segurança em prol de mais liberdade.
Esse é meu dilema. Eu acho que já sinto alguns sinais panorâmicos de que o pêndulo esta começando a voltar em direção a mais segurança.
O Estado social vem de novo em favor do publico, as pessoas sonham com ele, elas querem poderes mais fortes e mais estabilidade.
Esta muito no inicio, não estou dizendo que já estamos no caminho certo, mas há sinais de que isso esta acontecendo.
Então, minhas conclusões são duas; em primeiro lugar você nunca encontrará uma solução perfeita do dilema entre segurança e liberdade, sempre haverá muito de uma e pouco de outra, certo?
A segunda é que você nunca irá parar de procurar essa mina de ouro, eu não acredito que haja apenas uma forma de ser feliz.
Há muitas formas de ser feliz, neste post que escrevo sobre a arte da vida, há dois fatores relativamente independentes que dão forma à vida humana, um deles é o destino, o destino é o apelido para todas as coisas sobre as quais não temos nenhuma influencia, é o que acontece conosco, mas não foi causado por nós, isso é destino.
E o outro é o caráter, o caráter é algo muito individual, você pode trabalhar em cima do seu caráter, se quiser, você pode mudá-lo, melhorá-lo, boa parte dele esta sob seu controle.
A divisão de trabalho entre o destino e o caráter é tal que o destino estabelece a gama de opções que são realistas para você.
Sobre isso você não tem nenhuma influencia, se você tivesse nascido 20 anos antes, sua gama de opções seria diferente, se você tivesse nascido 20 anos depois, novamente seria diferente, se você tivesse nascido num bairro rico, você teria uma gama de opções e se tivesse nascido num gueto, seriam opções completamente diferentes.
Mas sempre há opções proporcionadas pelo destino, porém, as escolhas entre essas opções são feitas pelo caráter.
E como os tipos de caráter são muitos e bem diferentes, não é possível dar uma receita para a felicidade.
Eu sei que hoje existem consultores ganhando muito dinheiro, fingindo que possuem receitas para a felicidade.
Não acreditem neles, eles estariam enganando você, eu jamais ousaria dar esse tipo de conselho, não estou me comparando a Sócrates, mas muitos filósofos contemporâneos consideram a vida de Sócrates a personalidade que ele construiu como a relativamente mais perfeita possível que se pode imaginar.
Nas o que isso significa? Significa que o tipo de vida escolhida por Sócrates era considerada a solução perfeita para Sócrates? Significa que todos nós devemos imitar Sócrates e tentar ser iguais a ele? Não, pelo contrario, porque Sócrates precisamente considerava que o segredo de sua felicidade estava no fato de ele próprio por sua própria vontade, ter criado a forma de vida que ele viveu.
As pessoas que imitam a forma de vida de outra pessoa, o modelo de felicidade de outra pessoa, não são como Sócrates, pelo contrario elas traem a receita dele, precisamente porque sua receita é pessoal, bem, você pode traduzir isso em termos simples, dizendo que para cada ser humano há um mundo perfeito feito especialmente para ele ou para ela.

segunda-feira, setembro 05, 2011

FORA CORRUptO



Desencarna Lula! O INFERNO TE ESPERA.

As palavras fazem sentido. Essa é uma das mais antigas batalhas deste escriba. Têm aquele sentido estanque, do dicionário, elucidado por sinônimos ou perífrases. E têm o sentido que lhes conferem as circunstâncias, o contexto. Luiz Inácio Apedeuta da Silva, a face mais visível da doença que toma conta da política brasileira, esteve em Minas. E, mais uma vez, nos deu a oportunidade de ler as palavras pelo sentido que elas têm e interpretá-las pelos silêncios que enunciam. Voltou a negar que possa ser o candidato em 2014. E se pergunta então: “Por que um ex-presidente da República, que já havia anunciado que não seria candidato, nega que pretenda se candidatar se não for  com o objetivo de que sua candidatura seja debatida como realidade plausível?” Vale dizer: as palavras de Lula devem ser lidas pelo avesso. Ele afirma o que nega; nega o que afirma.
Foi adiante: “Dilma só não será candidata se não quiser”. A oração subordinada adverbial condicional — “se não quiser” — traz uma hipótese com a qual ninguém contava até outro dia, muito menos os petistas, especialmente quando a mandatária não concluiu ainda o seu oitavo mês de governo. Então está dado que existe a possibilidade de Dilma não querer. É Lula quem sustenta isso. Em política, “querer” ou “não querer” depende mais da vontade de terceiros do que da própria. O Babalorixá, ele próprio, faz de tudo, já está claro a esta altura, para que ela não queira. Ou não se moveria no tabuleiro da política com tanta saliência.
Não estamos diante daquela situação em que a criatura se volta contra o criador, como o monstrengo criado por Doutor Victor Frankenstein. De certo modo, é o contrário: Lula padece de uma inveja patológica da sua criatura. Considera-se o dono de Dilma de Rousseff. E está profundamente insatisfeito com os rumos que as coisas estão tomando. A imagem da faxina, ainda que uma expressão usada pela imprensa, colou. Só se limpa o que está sujo. E a sujeira foi, sim, a herança maldita que caiu no colo da sucessora. É evidente que ela era da turma. E figura de proa. Tanto é que foi escolhida para conduzir o navio — ou, ao menos, para representar esse papel. Mas a dinâmica da política não depende, reitero, só de vontades. A sujeira começou a aparecer. E os “descontentes” só não estão na rua porque os nossos esquerdopatas transformaram sindicatos, ONGs, movimentos sociais e entidades de classe em sucursais do partido. O PT está hoje mais presente na sociedade do que o Baath no auge do poder de Saddam Hussein. Os tolos dirão: “Mas foi pela via democrática”. O aparelhamento é sempre uma afronta à democracia, jamais a sua expressão.
É inaceitável que um ex-presidente da República se coloque, de peito aberto, como uma espécie de articulador informal do governo, seu intérprete mais avalizado, seu condestável. E é o que Lula está fazendo, tentando empurrar Dilma para fora do tabuleiro, embora reafirme, claro, seu apoio à sucessora.
Ele é popular? E daí?Eu estou pouco me lixando se o Apedeuta é ou não popular. Aliás, falar mal de impopulares é coisa que qualquer covarde pode fazer. Lula é, sim, o nome da “doença” da política brasileira — e vamos, então, ampliar a briga, porque aí o barulho fica bom —,  assim como Getúlio Vargas já foi um dia e, em muitos aspectos, ainda é. As pessoas têm os seus valores, e eu também. Não nutro a menor simpatia por um líder fascistóide, que prendeu, torturou e matou nas masmorras. “Ah, mas ele fundou o Brasil moderno!” Que Brasil moderno? O Getúlio do Estado Novo compôs com todas as forças reacionárias com a qual a dita Revolução de 30 prometia acabar — de fato, em certo sentido, Lula mimetiza Getúlio… Não leio a sua carta de suicídio sem atentar para o seu lado patético, sua literatice chula, seus contrastes vigaristas entre os “bons” e os “maus”, sua irresponsabilidade fundamental. Não se deve especular, por pudor, sobre a razão dos suicidas — desde que o sujeito não decida “sair da vida para entrar na história”. Arghhh… Politicamente, e é de política que falo, teria sido bem mais corajoso enfrentar seus acusadores. Era grande a chance de que terminasse deposto e na cadeia.
Essas almas “intensas”, “amorosas”, ” passionais”, “carismáticas” deseducam o povo e conduzem os países, com freqüência, ao desastre. Muito bem: Getúlio era fruto de um tempo que produziu varias formas do fascismo mundo afora — e aqui também, portanto. Mas os outros países exorcizaram seus fascistas. Nós amamos os nossos. Ou melhor: “eles” (porque não sou da turma) amam os deles. É claro que a “moral revolucionária” das esquerdas, muito especialmente dos comunistas, colaborou para isso. Luiz Carlos Prestes saiu da cadeia, onde tinha sido barbaramente torturado pela polícia de Getúlio — sua mulher, Olga, tinha sido deportada grávida para a Alemanha, onde foi morta — para subir no palanque do ditador contra “as forças do imperialismo”. Olga estava longe de ser a heroína pintada pelo chavista (e agora biógrafo de Lula) Fernando Morais. Mas isso não livra a cara de Getúlio.
Eu não opero com uma balança em que a canalhice é posta num prato, e as conquistas, noutro, em busca de um equilíbrio. Findo o estado novo, o lugar de Getúlio era a cadeia, não tentando voltar ao poder, aí pela via democrática, com o apoio dos comunas, que odiavam a democracia… Que circo nojento!  Por que falo de Getúlio? Porque estepaiz ainda vive à mercê desses redentores — e Lula ocupou esse papel, à custa de uma máquina de mentiras e de manipulação da informação de fazer inveja ao DIP getulista. Não! Não tenho absolutamente nada de pessoal contra o Babalorixá. Até me policio um pouquinho para não me deixar tocar minimamente por  sua inegável simpatia pessoal — quando não está sobre um palanque, possuído pelo ogro eleitoral. É a sua figura política que é nefasta, que deseduca, que desinforma, que dá sobrevida ao que há de mais atrasado na política .
O mito Lula precisa morrer — não o Lula! Que tenha tataranetos, mas sem passaporte diplomático! — se um Brasil minimamente afinado com a contemporaneidade quer nascer. O homem está mobilizando o seu partido e outros da base aliada contra um movimento — ainda incipiente, que é mais da sociedade do que de Dilma, é óbvio — contra a corrupção! Esse Shrek do Mal está tentando nos convencer de que  a sem-vergonhice é um preço que o Brasil precisa pagar para avançar. E não é! Uma coisa é admitir que o malfeito existe, é parte da política e precisa ser extirpado. Outra, distinta, é encará-lo como virtude.
No momento em que ministros atolados em lambanças perdem seus cargos, o que faz o “pai do povo”? Sai por aí estimulando, na prática, o debate sobre a sucessão de Dilma, que está no poder há menos de oito meses. Em defesa do que mesmo? De quais princípios? Se isso não é uma forma de chantagem política, é o quê?
O Brasil avança, sim! Avança apesar da corrupção e do permanente assalto ao dinheiro público. Avança pela força dos brasileiros que trabalham, apesar dos vagabundos que vivem do esforço alheio; avança pela capacidade empreendedora dos seus empresários, apesar daqueles que vivem do compadrio e dos favores do estado; avança pela força — e eles existem — dos políticos honestos, apesar da escória que entra na vida pública para se arrumar.
E é isto que precisamos ter muito claro: OS DEFEITOS DA VIDA PÚBLICA BRASILEIRA DEFEITOS SÃO, E NÃO VIRTUDES! Por mais que pareça absurdo a muitos, O BRASIL AVANÇA APESAR DE LULA, NÃO POR CAUSA DELE.
Ele havia prometido “desencarnar”, vocês se lembram. Mais uma vez, não cumpriu uma promessa. É chegada a hora de fazer uma campanha pública

quinta-feira, setembro 01, 2011

DITA DURA


O fato de não terem sido produzidas muitas obras durante a Ditadura Militar brasileira, ou argentina, ou uruguaia, ou, ou…parece dizer exclamativamente o quanto deixamos de pensar durante esses períodos. E o quanto o pensamento obscurantista persistiu em muitos corações e mentes.
“O pior da censura – concluía um intelectual, no princípio da redemocratização brasileira – é que ela se alimenta de si mesma, censurando-se”. De fato, enquanto alguns poucos jornais deixavam claro que estavam sendo coibidos – “O Estado de S.Paulo” a publicar receitas culinárias e o “Jornal da Tarde” a editar poesias – ambos nas suas respectivas primeiras páginas e no lugar das notícias – as outras publicações foram, terminantemente proibidas de se dizerem censuradas.
Para a Ditadura Militar, tudo tinha de correr conforme a mentira maior – de que viveríamos numa democracia. O corolário disso, contudo, foi a constatação feita por José Saramago logo após a “Revolução dos Cravos”, que restituiu a democracia a Portugal, depois de mais de trinta anos da ditadura salazarista. Era uma inverdade que as gavetas continham romances, ensaios e poesias a despeito da ditadura. Em tempos de ditadura, os cérebros funcionam a meia-boca: ninguém produz obras de arte na expectativa de não poder dizer sequer que a censura existe . No Brasil foram necessário mais de dez anos, desde o fim da Ditadura, para que, por fim, recomeçasse uma produção artística interrompida, principalmente durante o período governamental do general Garrastazu Medici.
Há os resistentes, sem dúvida. Durante o período que se seguiu ao estalinismo, na antiga União Soviética, tornaram-se comuns as pequenas publicações clandestinas (samizdat): elas circulavam como drogas entre traficantes e consumidores. Os poemas críticos, mesmo as edições pornográficas ( ou tidas, como tal, pelo regime), escafediam-se à menor movimentação da polícia. No mais, os fatos aconteciam independentemente dos órgãos oficiais. O pensador Antônio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, um dos poucos intelectuais marxistas que não seguiu a cartilha leninista do “partido único”, em pleno cárcere a que foi jogado por Mussolini, conseguiu escrever alguns ensaios em que burlou a censurafascista. Em vez de falar de marxismo em seus escritos, substituiu a expressão por “filosofia da práxis”. Logrou ser entendido, apesar do sufoco censório de seus algozes.
Chico Buarque de Holanda, anos mais tarde, conseguiria de outra forma, quase o mesmo no Brasil. Ao relatar numa de suas músicas, como os militares e os policiais invadiam as casas e prendiam as pessoas por qualquer suspeita, ele inverteu a expressão comum de chamar a polícia, pela frase mais que inverossímil “chame a ladrão”, “chame o ladrão”. Era mesmo de se “chamar o ladrão” diante da violência do regime imposto de cima para baixo, depois do golpe militar.
O grave da censura, porém, era mesmo que ela vetava a quem quer que fosse falar sobre a própria censura. O jornalista Alberto Dines quase foi preso ao pôr em dúvida as circunstâncias da morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais notórios torturadores do mundo na época. Conforme a versão oficial, ele teria sofrido de um” mal súbito” (um enfarte, digamos) ao cair no mar, por ter escorregado quando saía de seu iate (sim, o delegado tinha um iate, comprado da família Mesquita, de “O Estado de S. Paulo“). O mergulho, sempre a se crer na versão imposta pelos militares, fora-lhe fatal: tivera um mal estar e veio a falecer. Era uma versão tão estapafúrdia que o jornalista, desde a sua coluna na “Folha”, levantou suspeitas: o delegado era um arquivo vivo; já matara muita gente sob sevícias, conhecia todas as manobras do regime militar. Era de se duvidar de que tivesse morrido de um “mal súbito”. O jornalista pediu maiores explicações e uma autópsia: ela confirmaria a versão oficial. Ou não. Foi intimado a calar a boca, e o fez. Nunca se procedeu a qualquer investigação sobre a morte do delegado. É um dos mistérios do período que continuam sem qualquer resposta convincente.
Dos países sob censura, porém, o que sempre fica são os mistérios. Sabe-se pouco sobre os processos da Inquisição da Igreja Católica. O que sempre se teve, era que o eventual suspeito podia ser submetido a todo o tipo de tortura. Se confessasse, era culpado, fogueira nele; se não o fizesse, era condenado do mesmo jeito, não havia como escapar, ainda que muitos tivessem a sorte de não serem mortos. Uma das formas de saber se o suspeito tinha ligações com o demônio, por exemplo, era jogá-lo em águas profundas com as mãos amarradas, tendo aos pés um peso proporcional a seu tamanho: se afundasse, teria as bênçãos da igreja e se rezaria, então, uma missa por sua alma; se boiasse, era conduzido a uma fogueira para ser queimado vivo. Não havia alternativa. A expressão ainda hoje usada como ausência de qualquer hipótese, em que dizemos que alguém ficou “entre a cruz e a caldeirinha” não deixa, no seu prosaísmo, de ser uma referência àqueles tempos. É que não havia como protestar ou exigir um mínimo de justiça. No fundo, aliás, era a mesma lógica da censura: em qualquer situação: impunha-se que não houvesse qualquer discussão ou denúncia.
Alguns argumentos usados pelos censores tornaram-se famosos, principalmente no Brasil. Para um ministro da educação da época do general Médici, havia que censurar as peças de Bertolt Brecht, ainda hoje um dos maiores dramaturgos de todos os tempos.. Como o autor fora declaradamente comunista e os comunistas censuravam em seus países, nada mais natural que ele fosse igualmente censurado no Brasil da época. A censura justificava a censura. O problema se situava, porém, no processo intelectual.
Consideradas hoje todas as situações, a prática censória quase sempre beirava inegavelmente ao ridículo – risível atualmente, mas assustador naqueles dias. Qualquer obra ou disco que indicasse uma origem “russa”, era objeto de inquirição do censor militar ou não. Foi assim com as gravações da música de Rimsky Korsakov. O grande compositor romântico russo morreu em 1908: nunca se interessou por política e certamente jamais imaginaria a Revolução de Outubro de 1917. Mesmo assim, não raro, foi devidamente arrolado como prova das ligações de alguém com o comunismo. Entre os jornalistas cariocas contava-se que um agente da censura perseguiu durante certo tempo um comunista tcheco infiltrado no“Jornal do Brasil“. O tal agente mencionava o nome. Seria um certo “Copidrek”, ou seja, na linguagem jornalística o “Copydesk” – reescrevedor das matérias. Era a ele que muitos repórteres aludiam quando lhes era cobrada uma determinada notícia que não agradava o regime. Nos ouvidos moucos do censor “copydesk” soava como “Copidrek”. Sem comentários.
Nada disso, porém, e a propósito, transparece hoje em dia. O ridículo tem prazo de validade, o que, no fundo, não deixa de ser bom, mas também significativo. Já ninguém pensa em aprisionar quem quer que seja por escrever, pintar ou filmar cenas de sexo, sejam explicitas ou não. O homossexualismo, com a exceção das tentativas das igrejas cristãs de criminalizá-lo, está legalmente a salvo de qualquer sanção da lei. No entanto, nada garante que as coisas persistam, ou revertam um dia. Sabe-se que os prisioneiros de Guantánamo, que estão sob a guarda do exército americano, são submetidos a torturas, com a leniência das autoridades jurídicas dos EUA. No Irã, as ameaças ao apedrejamento de mulheres consideradas “adúlteras” está inscrito nas próprias leis do país. As sevícias são plenamente praticadas em muitas prisões brasileiras. E há uma resistência renhida de parte não só de alguns militares que se investiguem e se publiquem os abusos cometidos durante o Ditadura Militar.
Diz-se a boca, não tão pequena, que haveria uma reação perigosa e inusitada dos torturadores e seus patrocinadores, se o levantamento sobre os crimes praticados durante a Ditadura forem devidamente apurados. Seria se como a Igreja, ao admitir que cometeu barbaridades, como as que fez com Giordano Bruno que foi queimado vivo por não ser “muito ortodoxo” nas suas idéias, se empenhasse em proibir a divulgação dos erros que admitiu cometer durante séculos.
Talvez, por termos o pensamento na conta de única característica genuinamente humana, os homens seríamos medrosos das suas virtualidades. Os militares que patrocinam golpes em diferentes países, continuam sendo os primeiros a acusar o pensamento como ponto nevrálgico contrário a seus cometimentos. Não é, enfim, por mero acaso ou pior, um paradoxo que, da Inglaterra -berço da imprensa livre – à Líbia, passando pela China, haja certo empenho das autoridades em controlar a internet: ela seria o pensamento em sua forma eletrônica. E, ainda que haja uma diferença fundamental entre ingleses e líbios ( ou sírios, ou chineses), talvez não seja de se estranhar que a questão entre no repertório de maldade de todos os sistemas. A censura é, continua sendo, a única maneira viável de fazer os homens não pensarem. Mussolini reclamava que o cérebro de Gramsci tinha de ser impedido de funcionar, o que afinal, aconteceu meses depois de o escritor, mais que combalido, ter sido libertado da prisão a que o submeteram os fascistas italianos.
Em suma, o fato de não terem sido produzidas muitas obras durante a Ditadura Militar brasileira, ou argentina, ou uruguaia, ou, ou…parece dizer exclamativamente o quanto deixamos de pensar durante esses períodos. E o quanto o pensamento obscurantista persistiu em muitos corações e mentes. O episódio recente do assassínio de uma juíza, intimorata na condenação de assassinos militares, desvela a dimensão do problema: não deve haver um só entre os jovens assassinos que trabalham em seu mister, que não tenha um velho façanhudo a dirigir seus passos e a relembrar os velhos tempos da Ditadura, quando renasceram os Esquadrões da Morte – desta vez não para matar criminosos, mas para eliminar presos políticos.. Foi uma das grandes invenções do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Que, como se sabe, “morreu de doença” e não de “morte matada” etc. etc. etc


Para a Ditadura Militar, tudo tinha de correr conforme a mentira maior, de que viveríamos numa democracia.