quinta-feira, setembro 08, 2011

FRONTEIRA DO PENSAMENTO



O mundo pós-moderno, a condição social
O que aconteceu no século 20, foi uma passagem de toda uma era na história mundial, ou seja, da sociedade de produção para sociedade de consumo.
Por outro lado, houve os processos de fragmentação da vida humana.
Quando eu era jovem, já a algum tempo, ficávamos impressionados quando nos dizíamos que precisávamos de um projeto de vida, temos que selecionar um projeto de vida, temos que prosseguir passo a passo, de forma consistente, ano após anos chegando cada vez mais próximos desse ideal.
Agora, conte isso aos jovens de hoje e eles rirão de você.
Nós temos grandes dificuldades em adivinhar o que vai  acontecer conosco no ano que vem.
O projeto de vida de uma vida inteira é algo difícil de acreditar.
A vida é dividida em episódios, não era assim no inicio do século 20.
As sociedades foram individualizadas, em vez de se pensar em termos de a qual comunidade se pertence, a qual nação se pertence, a qual movimento político se pertence etc, tendemos a redefinir o significado de vida, o propósito de vida, a felicidade na vida para o que esta acontecendo com uma própria pessoa, as questões de identidade, que tem um papel tremendamente importante hoje no mundo.
Você tem que criar a sua própria identidade, você não à herda.
Não apenas você precisa fazer isso a parti do zero, mas você tem que passar sua vida, de fato, redefinindo sua identidade.
Porque os estilos de vida, o que é considerado ser bom para você e ruim para você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam tantas vezes na sua vida.
Se eu tentasse listar as coisas que saíram de moda a este respeito, que mudaram nos 50 anos na minha vida, provavelmente eu levaria varias horas aqui apenas para listar todas elas.
Então, tudo isso mudou, muitas mudanças, não apenas a passagem do totalitarismo para a democracia, mas muitas outras coisas e receio que não possamos, realmente, dizer qual dessas mudanças é a mais duradoura e vai influenciar a vida das próximas gerações dos nossos netos ou bisnetos, não consigo dizer se foi o inicio de uma nova forma de vida que vai durar séculos ou se é um período de transição de um tipo de ordem social para outro tido de ordem social.
Quando você esta num período de transição, fica muito difícil imaginar outro tipo de solução estável um acordo de convivência humana.
Mas isso vem mais cedo ou mais tarde e até mesmo esta pergunta não dá para responder.
Eu acredito que, com algum grau de responsabilidade, posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis.
Uma é que multiplicamos, nós, a humanidade no planeta, as conexões, as relações, as interdependências, as comunicações, espalhadas em todo o mundo.
Estamos agora numa posição em que todos nós dependemos uns dos outros.
O que ocorre  no Egito, Líbia ou na Malásia quer você saiba ou não, sinta ou não, tem um tremenda importância nas perspectivas de vida dos jovens em São Paulo e vice –versa, estamos todos no mesmo barco.
Esta é a primeira vez na historia em que o mundo é realmente um único país, em certo sentido.
A segunda questão é que aproximadamente após 300 anos de historia  moderna, nossos antepassados decidiram assumir a natureza sob a gestão humana na esperança de que eles fariam com que a natureza absolutamente obedecesse às necessidades humanas e teriam pleno controle do que acontecesse no mundo.
Agora, isso acabou porque, no resultado dos nossos próprios sucessos, as nossas respostas para os nossos sucessos o desenvolvimento da tecnologia moderna, a eficiência ou a nossa capacidade de produzir cada vez mais, alcançar todos os tipos de recursos naturais do planeta no resultado de todo esse tremendo sucesso da ciência e da sociologia, chegamos muito perto do que, agora, entendemos serem os limites de suportabilidade do planeta.
Eu sou um humilde ser, eu não tenho habilidades proféticas aqui, eu nunca aprendi nenhuma metodologia de profecia.
Então, eu não sei como isso afinal vai se desenvolver, eu só posso lhe dizer quais são os perigos, hoje para a democracia.
Um se refere a quais são as dimensões do divorcio entre o poder e a política, porque, se esse for o caso, então o Estado, a única instituição política que temos, nós não temos uma instituição política global, o Estado não tem poder suficiente para manter todas as promessas que os Estados 50 anos atrás, fizeram aos cidadãos, e essa foi a “era de ouro” da democracia.
Nos 30 anos do pós-guerra, ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal.
Agora a democracia esta em decadência, cada vez menos pessoas estão realmente convencidas de que seja uma coisa boa, e tem duvidas a respeito da qualidade da democracia, Por que? Simplesmente porque o Estado relativamente sem poder consegue oferecer cada vez menos aos cidadãos.
O que os Estados estão fazendo, com muito poucas exceções, isso é, o que a maioria dos Estados estão fazendo é subcontratar muitas funções que o Estado deveria desempenhar, quem sabem talvez aqui já estou envolvido em profecia, nós inventemos uma democracia global, em algum momento e essa seria uma solução radical, principalmente porque eu não creio que a estrutura do Estado-nação permita que ele possa seguir defendendo sozinho o futuro da democracia, pelos motivos que eu mencionei anteriormente, certo?  Então as gerações futuras terão que inventar, um equivalente global das invenções dos nossos antepassados, eles inventaram a democracia representativa de âmbito nacional parlamentos modernos, eles inventaram a jurisdição e não leis locais, tradicionais, habituais, o direito consuetudinário mas um código de direito unificado para todo o país, eles inventaram todas as coisas que criam a democracia moderna.
Se Aristóteles fosse convidado a ir à um prédio de qualquer parlamento contemporâneo se espantaria.
Aristóteles foi o primeiro a usar o conceito de democracia a descrevê-la, certo? Ele provavelmente gostaria do que iria ver, porque as pessoas debatem, apresentam diferentes pontos de vista, discutem depois votam e chegam a algum acordo.
Mas, então, se alguém contasse a ele que isso é democracia, ele iria rir, porque a democracia que ele descreveu na Atenas antiga era as pessoas apenas indo ao mercado brigando entre si e chegando a uma resolução.
O que significa que a democracia é uma noção que se adquire com o tempo, na historia, diferentes formas, diferentes instrumentos, diferentes estratégias.
Então, uma coisa de que eu posso ter certeza é de que se vocês realmente inventarem equivalente globais para a democracia do Estado-nação, então será uma democracia, mas não serão as instituições democráticas que conhecemos apenas maiores, não serão semelhantes a essas instituições, porque essas instituições que agora chamamos democráticas, foram criadas e adaptadas às necessidades do Estado-nação.
Castoriadis prossegue e diz que o individuo autônomo e a comunidade autônoma política só podem existir juntos, um precisa do outro, você não pode ser um individuo numa sociedade tirana, numa sociedade totalitária.
Não somos realmente indivíduos.
Deve haver uma cooperação mutua entre as duas autonomias, foi muito bonito, mas o perigo veio de um lado inesperado.
Quando Castoriadis escreveu suas palavras, ele escreveu contra o totalitarismo da época.
Bem de novo peço desculpas por ter que lembrar o passado pictórico, mas quando eu era jovem, eu temia que todo o perigo viesse da esfera publica, George Orweel, de forma memorável colocou isso da seguinte maneira: “Nós temos medo da bota de um soldado prensando um rosto humano”.
Muito bem, isso era um perigo, sem duvida alguma; Nossos antepassados e parte da minha própria geração conseguiram superar esse perigo, afastá-lo, nós realmente não temos mais medo como acontecia em outros tempos da individualidade ser oprimida pelos choques vindos de cima como a policia política etc.
Há alguns vestígios disso, mas bastante aliviados ou mitigados por comparação; Entretanto, o perigo para esta autonomia veio de outro lado, da esfera do privado e do individuo, a maior aproximação contemporânea, da agora pós-moderna, do lugar onde a democracia foi feita, refeita, continuada, desenvolvida e protegida a maior aproximação disso são os talk shows na televisão.
É onde as massas assistem, participam, telefonam, enviam perguntas, mensagens etc.
Algo semelhante ao que se fazia na antiguidade, ao olharmos para isso, vemos que eles não estão discutindo os nossos interesses compartilhados, não estão discutindo o bem-estar da sociedade, não estão discutindo sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas que todos nós sofremos na sociedade atual.
Eles apenas confessam, em última analise os problemas privados e bastante íntimos.
Ehrenberg, sociólogo Frances afirmou que em sua opinião a revolução pós-moderna começou numa quarta-feira à noite num outono da década de 80, quando uma certa Vivenne, uma mulher comum na presença de 6 milhões de telespectadores, declarou que nunca ter tido um orgasmo durante seu casamento, porque seu marido, Michel, sofre de ejaculação precoce.
Começo da revolução, por que começo da revolução? Porque, repentinamente agora as pessoas começavam a confessar coisas que eram a personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você for católico, ao padre, no confessionário ou aos seus amigos realmente muito chegados ou realmente muito íntimos, mas você não iria a praça publica anunciar para todos.
Então agora foi conquistada, não pelos regimes totalitários, mas exatamente pela privacidade por coisas que anteriormente eram privadas no confessionário que é a personificação a encarnação da intimidade e da privacidade, você conversa diretamente com Deus, é um segredo absoluto.
Um viciado no Facebook me segredou, não segredou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia, minha resposta foi que nos quase 50 anos que vivo, não tenho 500 amigos, eu não consegui isso com laços humanos, então, provavelmente, quando ele diz “amigos” eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa são coisas diferentes.
Quando eu era garoto, eu nunca tive o conceito de “redes”, eu tinha o conceito de laços humanos de comunidades esse tipo de coisas, mas não “redes”, qual a diferença entre comunidades e redes? A comunidade precede você, você nasce numa comunidade.
Por outro lado, temos a rede, o que é uma rede?, A rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes, uma é conectar e a outra é desconectar.
E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo esta exatamente ai, que é tão fácil de desconectar.
É fácil conectar, fazer amigos, mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar, imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, comportamento online, conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho.
Então romper relações é sempre um evento muito traumático, você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com freqüência e mesmo assim você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc.
É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressionar delete e pronto, em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanha você terá outros 500 e isso mina os laços humanos.
Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição, benção porque é realmente prazeroso, muito satisfatório ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de experiência indisponível para amizade no Facebook, então é uma benção.
Eu acho que muitos jovens, não tem nem mesmo  consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram, esse tipo de situação, por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço você espera ficar lá para sempre, você jura, você faz um juramento, até que a morte nos separe, para sempre, o que isso significa? Significa que você empenha o seu futuro, talvez amanha ou no mês que vem, haja novas oportunidades, agora você não consegue prevê-las e você não será capaz de pegar estas oportunidades, porque você ficará preso, preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.
Então é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários.
Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo, de que há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz.
Um é segurança e o outro a liberdade, você não consegue ser feliz, você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo? Segurança sem liberdade é escravidão, liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso.
Então, você precisa dos dois, entretanto, o problema é que ninguém ainda, na historia e no planeta encontrou a formula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade.
Cada vez que você tem mais segurança você entrega um pouco da sua liberdade, não há outra maneira.
Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte de sua segurança, então, você ganha algo e você perde algo.
Há 81 anos, Sigmund Freud publicou um livro famoso e tremendamente profundo e influente intitulado, “O mal-estar da civilização”, ele diz que a civilização é sempre uma troca ou seja, você dá algo de um valor, para receber algo de outro valor.
E ele disse e escreveu isso nos anos 1920, naquela época, ele disse que o problema deles da velha geração foi que eles entregaram liberdade  demais em prol da segurança, e estou profundamente convencido de que se Freud estivesse escrevendo este post agora no meu lugar, ele provavelmente repetiria que toda civilização é uma troca, mas seu diagnostico seria exatamente o oposto, que os nossos problemas hoje derivam do fato de que nós entregamos demais a nossa segurança em prol de mais liberdade.
Esse é meu dilema. Eu acho que já sinto alguns sinais panorâmicos de que o pêndulo esta começando a voltar em direção a mais segurança.
O Estado social vem de novo em favor do publico, as pessoas sonham com ele, elas querem poderes mais fortes e mais estabilidade.
Esta muito no inicio, não estou dizendo que já estamos no caminho certo, mas há sinais de que isso esta acontecendo.
Então, minhas conclusões são duas; em primeiro lugar você nunca encontrará uma solução perfeita do dilema entre segurança e liberdade, sempre haverá muito de uma e pouco de outra, certo?
A segunda é que você nunca irá parar de procurar essa mina de ouro, eu não acredito que haja apenas uma forma de ser feliz.
Há muitas formas de ser feliz, neste post que escrevo sobre a arte da vida, há dois fatores relativamente independentes que dão forma à vida humana, um deles é o destino, o destino é o apelido para todas as coisas sobre as quais não temos nenhuma influencia, é o que acontece conosco, mas não foi causado por nós, isso é destino.
E o outro é o caráter, o caráter é algo muito individual, você pode trabalhar em cima do seu caráter, se quiser, você pode mudá-lo, melhorá-lo, boa parte dele esta sob seu controle.
A divisão de trabalho entre o destino e o caráter é tal que o destino estabelece a gama de opções que são realistas para você.
Sobre isso você não tem nenhuma influencia, se você tivesse nascido 20 anos antes, sua gama de opções seria diferente, se você tivesse nascido 20 anos depois, novamente seria diferente, se você tivesse nascido num bairro rico, você teria uma gama de opções e se tivesse nascido num gueto, seriam opções completamente diferentes.
Mas sempre há opções proporcionadas pelo destino, porém, as escolhas entre essas opções são feitas pelo caráter.
E como os tipos de caráter são muitos e bem diferentes, não é possível dar uma receita para a felicidade.
Eu sei que hoje existem consultores ganhando muito dinheiro, fingindo que possuem receitas para a felicidade.
Não acreditem neles, eles estariam enganando você, eu jamais ousaria dar esse tipo de conselho, não estou me comparando a Sócrates, mas muitos filósofos contemporâneos consideram a vida de Sócrates a personalidade que ele construiu como a relativamente mais perfeita possível que se pode imaginar.
Nas o que isso significa? Significa que o tipo de vida escolhida por Sócrates era considerada a solução perfeita para Sócrates? Significa que todos nós devemos imitar Sócrates e tentar ser iguais a ele? Não, pelo contrario, porque Sócrates precisamente considerava que o segredo de sua felicidade estava no fato de ele próprio por sua própria vontade, ter criado a forma de vida que ele viveu.
As pessoas que imitam a forma de vida de outra pessoa, o modelo de felicidade de outra pessoa, não são como Sócrates, pelo contrario elas traem a receita dele, precisamente porque sua receita é pessoal, bem, você pode traduzir isso em termos simples, dizendo que para cada ser humano há um mundo perfeito feito especialmente para ele ou para ela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário